Publico aqui a última parte do que era para ter sido um livro.
Não sei se retomarei este blog. Acompanhem-me, por enquanto, no Talicoisa!
De volta ao quintal
É tão fácil voltar. Não precisa muita coisa, a armadilha foi muito bem armada.
Um só erro... e uma sucessão de outros a faz voltar quilômetros em segundos, que trilhara penosamente por anos...
Uma piscadela... é só um pouco... e os grilhões se apertam mais e mais... e me põem novamente no quintal, nos jogos que vivo repetindo...
Como posso voltar a um lugar de onde não saí?
E vejo as paredes... quero sair?
O livro das maldições
Amaldiçôo minha memória, sutil, seletiva, obsessiva... que me enreda e transporta sempre de volta ao mesmo ponto.. que me faz repetir patéticas reprises de mim..
Enquanto amaldiçôo, cultuo a deusa Memória, e nada faço, ponto imemorial da vida em que me fixei...
Fechar e queimar o livro das maldições...
Questão de fé
Desde que nascemos nos dão objetos nos quais crer. O grande seio, sempre presente, sempre ausente... onipotente! Substituído pó mamadeiras, chupetas, bonecas, bichinhos... com todo prazer e frustração... São nossos patuás, ícones, modelos...
Todos representam o mesmo seio que tanto relutamos a largar...
Maquiagem
Caminha em direção ao espelho e molda seu rosto, ela vai assim se fazendo personagem. Aqueles modelos impostos não se parecem em nada com ela. O cabelo certo, o corpo perfeito, cada gesto no lugar. Ela precisa copiar, mascarar o que é seu e parecer com seus modelos...
E ela carrega nas tintas, transfigura-se, às vezes, mutila-se... o padrão a persegue...
Quando ela o nega, faz seu avesso e o reforça...
A maquiagem embota seu rosto e algo mais que sua pele...
Patinho Feio
Olhei pela enésima vez meu conhecido rosto, tentando adivinhar traços de beleza e feminilidade.
Mas aquele corpo desengonçado, aquele cabelo sem graça, poderiam ser belos um dia?
Lagarta definitivamente? Eu adorava o papel que me atribuí de Patinho Feio, inventando meios mágicos de me tornar bela, mil príncipes e beijos – a remissão, a metamorfose, responsabilidade legada aos delírios...
Enquanto a sereia canta, o resultado é o naufrágio...
Propaganda
Mulher! Ali na esquina está em oferta.
Cem por cento natural, com os opcionais de fábrica... várias cores e tamanhos, ideal a todos os gostos e bolsos, insinuada, escancarada... eis a mulher!
Serve a vários papeis, se adapta em qualquer lugar, tudo nela é vendável...
Mas o que perde não tem preço.
Revirando mundos
Acompanhei os elegantes passos dela. Sua calma, seus gestos comedidos, sua inteligência me fascinavam. Ela, naquela casa linda, era a própria imagem da perfeição.
Será que ela sente dor? Eu parecia uma criança curiosa, ao perceber que ela era normal...
Olhos arregalados como aqueles foram ficando mais raros, mas internamente ainda estão ali. Há muito o que crescer.
Página de agenda
Domingo, 14. Botar aquela roupa e deixar o ombro à mostra. Não esquecer da falsa inocência. Encontrar um nome e repeti-lo à exaustão. Ah, e é claro, a habitual depressão domingueira.
Segunda, 15. Ele, ele e ele – mas não aquela pessoa, mas o nome, a obsessão. Nos cantos, no meio das páginas, em várias cores e formas, e vários coraçõezinhos. E a depressão, afinal, é segunda.
Terça, 16. Nada em especial, talvez eu arranje uma doencinha, pobre de mim!
Quarta, 17. Enumero as coisas que eu queria fazer, ter, realizar. Faço um inventário de minhas frustrações.
Quinta, 17. Todos se divertem, menos eu.
Sexta, 19. Como ter sem realizar?
Sábado, 20. Enxotar os fantasmas os fantasmas e parar de fazer lágrimas. É agir...
Eu tinha papéis tão bem arrumados, eu os conhecia e olhava... todos os dias... um “script” do qual não fugia uma só vírgula...
Como agirei sem eles, quando o mundo me afrontar? Que gestos devo buscar? Tudo à minha volta é neblina...
Os papéis estão ali, voando.... passos pra frente, papéis para trás...
O círculo
Ela começou a caminhar, igual aos modelos a ela legados. Conhece cada passo e gesto. Caminha, mas não anda nem muda... são as mesmas sombras aqui e ali.
Nem mais percebe que está presa... e segue na mesma direção... nada faz ou constrói...
Tateia, anda em volta... e permanece no círculo que criou... porque quer.
Outra página de diário
De volta ao pátio da casa de minha mãe... minha vida sempre presa ali?
Construindo bolos de terra, teço mundos à minha volta, amostras de minhas obsessões.
Universos paralelos, que ainda povoam minha mente e atitudes.
Arrumados sempre do mesmo jeito...
E só no mundo, como deveria aprender a ser...
Descobertas
“Tu és menino ou menina?” a voz severa perguntou, e até hoje não lembro de onde veio. “Menina...”, disse sem convicção...
Mas preferia estar entre os meninos, alegres, anárquicos. No primeiro dia na escola, deparava-se com o fato de ser menina (que no entanto tão bem sabia...)
E o que é ser menina??? Eis o mistério, que ainda a atormenta...
Eu não sou daqui
Sentada no chão da cozinha: misto de culpa, torpor, ausência.
Um segredo seu... um pensamento que sempre a afligia... a ausência... sentia-se flutuando, uma irrealidade, “não sou daqui, não pertenço a este lugar”: culpa... e alegria... e torpor.
As histórias que delira a seu próprio respeito... seus delírios tão presentes... e realmente não pertencia àquele mundo: verdade simples... que sufocava.
Rosto no espelho
Era noite, difícil de dormir, forjava a sensação de que algo especial estava pra ocorrer...
Enquanto um espelho a fitava na parede. Na penumbra, seu rosto e as sombras; procurava um significado, fantasiava uma profecia.
A figura se formou de seu medo, sua vontade, seu delírio.. e viu a mãe, rosto sério e sofredor... quem era quem?
Há um mundo a escrever. Preciso, devo me posicionar.
Quem quer saber de minha opinião???
Mas as páginas me desafiam.
Tens de crescer, esquecer colos, condenscendências, flores, gentilezas... o mundo não estenderá tapetes, nem te pagará as contas. Ninguém te abrirá portas, nem te dirá o que tens a dizer. Toma tuas próprias palavras, tuas próprias páginas, faze valer teu máximo.
Este é o mundo. Meninas, definitivamente, não entram.
Casa de bonecas
Eu as guardo nas prateleiras. Lá estão elas, olhando para mim, sedutoras loucuras, letais fantasias... Tiro-as uma a uma, dispo-as, visto-as, vivo através delas: sou de plástico, pano, porcelana...
Sentadas em suas prateleiras me fitam, olhos secos, estereotipados, olhos azuis como os que quisera ter...
Belos monstros... quem está sendo usado???
Os vestidos, fitas e babados as enfeitam, acorrentam-me... elos de uma voluntária cadeia (que acho doce).... e a vida...?
Vitrine
Lá está ela, expondo-se para todos. Ela se põe numa bandeja... é o veneno... os que a querem, a destroem... como ela também.
Passa lentamente, meneia os quadris: toda sexo, toda inteira, toda dividida.
Ensaia poses congeladas, que repete (e repete). É “natural” assim...
Ergue os olhos e procura por quem a esteja olhando: um grande vidro à sua frente, etiquetas de preço por toda parte...
São preços altos, mas, do lado de dentro da vitrine, nem percebe que ela mesma os paga...
Continuando a publicação dos esboços do que um dia acreditei que podia ser um livro.
Página de diário
Os meninos fizeram uma casa no jardim e puseram uma placa: “meninas não entram”.
Nós crescemos, e esquecemos que a placa continua.
Em certos lugares, meninas nunca entram... mas preferimos a menina...
Adeus às armas
O arsenal é imenso. Pequenos, sutis, naturais artefatos: botões aqui, sorrisos ali.
Lá vai ela... “inconsciente” de sua força... poderosa????
Chama, fingindo ser chamada. Menina, finge-se mulher; mulher, faz-se menina...Usa as armas... as armas a usam... e a sufocam... ou as depõe, ou morre...
Porão
Olha as velhas fotos, amareladas, sinais dos tempos.
Casamentos, tias distantes, caras de coitada e rosas de plástico, modelos que (não) rejeita.
Histórias de fracasso... como poderia dali sair outra coisa? Boa desculpa: “o fruto não cai longe do pé”.... cômodos fantasmas...
Fotos e lembranças não podem protestar.
O porão é para onde corremos para fugir das responsabilidades.
Longe da sala de visitas... de nossos olhos... mas bem ao alcance da mão... por que não os derrubamos?
Passo a colocar aqui alguns esboços. Aberta, sempre, a críticas.
Falso olhar
Este olhar dirigido, estudado, falsamente ingênuo. Ensaiado por anos, aprendido de gerações, que usamos e amamos – e recusamos não utilizar.
Baixa suavemente a pestana, desvia o olhar obliquamente, ligeiro piscar, podendo enrubescer, milimetrimamente calculado... atávico?
Todo um ritual o precede e o acompanha. Vire o rosto assim, cruze as pernas assim... todas do mesmo jeito. Quem nos ensinou?
Vivemos nossa estranha coreografia, que fingimos não perceber: nós a perpetuamos... e acreditamos...
Redundâncias
Repetimos modelos, modelos nos repetem. Clichês a nos moldar. Usamos os meios que nos usam... cremos nas máscaras, desconhecemos nossa verdadeira face.
Andamos a reproduzir os mesmos gestos e maneirismos, num círculo vicioso que pretendemos original.
Somos nossos próprios algozes, vigiando quem ousa romper tais laços.
Nós criamos e perpetuamos nossos monstros, e achamos que precisamos deles, nós os tornamos eternos. Torpor, medo e culpa viciam?
Um de meus blogs preferidos acaba de anunciar que acabará.
Muita coisa, inclusive o este humilde bloguinho, teve seu nascedouro lá. Assim como a Verdade Suprema, o reconhecimento dos poderes corcélicos, muitas amizades virtuais, as crônicas mirtescas que publiquei aqui, o Talicoisa, do qual também participo...
Muitas brigas, lágrimas, risos, tudo de bom e de ruim que acontece numa família de verdade.. .tudo isto elas nos proporcionaram quanodo criaram o fórum, o qual sofreu um ataque bem mais grave do que o que venho sofrendo aqui no meu humilde bloguinho.
É triste quando a gente vê blogs e sites que a gente frequentava quase que diariamente fenecerem... tenho tanta sauade do Mundo Perfeito, do Homem Chavão, do Virunduns... O pior é que enquanto isto, pseudo-celebridades têm invadido a rede e hoje está cada vez mais difícil encontrar coisas divertidas e leves.
Terei muita saudade das meninas que me fizeram relembrar do quanto é divertido ver "Em busca do Cálice Sagrado", e descobrir que existem figuras em pelúcia dos personagens do filme, até mesmo do famigerado coelho assasssino!
Então, fui escolhida para ser mesária nas eleições passadas e de novo nessas.
Ser mesário é ver coisas que a gente nem imagina quando é um mero eleitor, do tipo feliz da vida por participar da festa democrática - como eu mesma era até há alguns anos, ou do gênero fulo da vida por ter que enfrentar fila e um bando de chato querendo te empurrar santinho, como tem sido ultimamente comigo.
A gente vê de tudo: pessoal de partido comunista comprando moleques com sanduíche de mortadela e refrigerante para distribuir santinhos na boca-de-urna, pessoal de partido de centro-direita fazendo piquetes e barricadas para proteger seus "boca-de-urneiros", gente distribuindo bebida alcoólica ainda que seja proibido.
O melhor é ouvir o imaginário do povo que vem votar. É nessas horas que a gente vê como nosso povo é mal informado, mal instruído, manipulado. Que todo esse discurso de "vontade popular" é balela, e que o pessoal vota mesmo em quem está na frente nas pesquisas para "não desperdiçar o voto", ou em quem deu uma carrada de barro (como se conhece aqui o carregamento de barro usado em construção civil), uma cesta básica...
Muitos vão pras urnas sem saber em quem votar, ou mesmo como se faz pra votar. É com estes que os "boca-de-urneiros" contam, com seus santinhos, sanduíches e cervejas.
E tem os bêbados, claro. Em meio a tanta bebida, tem que ter bêbados, logicamente. Mesmo porque, de qualquer forma eles fazem parte da flora natural de qualquer fila, não seria diferente nas eleições.
Um deles veio na seção em que eu era mesária. Estava altamente alcoolizado, tropeçava nas pernas, sem camisa, fedendo a cigarro e cachaça, sem camisa. Eram quase cinco horas da tarde, estávamos para encerrar as atividades. E ele ficou ali, tentando colocar a camisa, até que entrou sem abotoá-la direito. Gritava:
- Eu tenho que votar no (nome do candidato a presidente)! Eu sou amigo do (nome do candidato a presidente)!
Repetiu isso várias vezes, e quem disse que tivemos coragem de dizer que ele não podia falar isso ali, na beira da urna? Poderia até ser preso... Olhamos uma pra outra, as três mesárias, e finalmente uma disse pra ele:
- Tudo bem, mas o sr. não pode falar isso aqui dentro...
Pra ele dizer, novamente, e aos gritos:
- Tudo bem, mas eu vou votar no (nome do candidato a presidente)! Sou muito amigo do (nome do candidato a presidente)!
Imaginei-o nas famosas churrascadas do amigão do peito dele (!).
E, depois que votou, olhou para nós três, passou os dedos pela boca, naquale famoso gesto " Na manteiga" (que o Didi fazia, lembram?) e disse, olhando em direção a um desses clubes de baile mega-decadentes que tem por toda parte:
- Ó! Depois tem bailão lá, hein? Depois tem bailão lá!
A forma como falou deu a entender que ele estava nos convidando e se achando o maior galã ali presente. Assim que a figura saiu, olhei pras minhas companheiras de mesa e disse:
- Meninas, não se esqueçam de ficar bem bonitas para ele!
Caímos na gargalhada, e fomos fechar os trabalhos. Dali, fui para o ponto de ônibus, onde me aguardavam mais visões de gente bêbada, desinformada, sem saber direito o que estava fazendo ali, ou contente por ter ganho um troquinho naquele dia.
Quando se trabalha nas eleições, a gente acaba tendo uma outra perspectiva dessa nossa ilusão democrática e "pequeno-burguesa", como diriam alguns.
Talvez todo mundo devesse trabalhar nas eleições de vez em quando, e quem sabe, tentar mudar um pouco esse panorama...
O poema abaixo foi feito no ano de 1999, durante uma das muitas guerras na região de Kosovo.
Estava lendo, nessa época, " O Romanceiro da Inconfidência" , e me inspirei - vagamente, pois não tenho tanto talento - nas rimas cheias de ritmo e vigor de Cecília Meirelles.
Passados quase dez anos, o que mais noto é que certas coisas não mudam... talvez só mudem de nome. A estupidez humana é uma delas.
Pois esse post é pra agradecer a uma, ou a algumas, não sei, pessoas, que têm postado aqui no meu humilde bloguinho vários, inúmeros e constantes (com pleonasmo, faz favor) comentários com e-mails falsos e mensagens cheias de letrinhas, mas sem nenhum conteúdo.
São só seqüências de letras, talvez códigos, não sei. Não tive lá muita paciência de procurar. Graças a estes "comentários", que na verdade nada dizem, tenho que visitar o Tenho Dito com freqüência, pra ir apagando-os. São pérolas como estas:
Não é meigo? De uma das minhas postagens eliminei nada menos do que 130 "comentários"! O bom é que, por conta disso, acabo não deixando o Tenho Dito às moscas, como eu achei que iria acabar ocorrendo por conta das minhas atividades. E, conseqüentemente, acabo publicando masi assiduamente do que a princípio imaginava.
Outra coisa boa é que acabo tendo muitas visitas, ainda que de spammers, ou harkers, ou simplesmente pessoas que não têm mais o que fazer da vida e ficam criando e-mails falsos e se dando ao trabalho de visitar o Tenho Dito e ainda deixar as sopas de letrinha nos comentários. É muita emoção pruma blogueira de meia tijela como eu!
Enfim, querido (a/s) que me mandam sopa-de-letrinhas, muito obrigada mesmo.
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Sua inveja faz minha fama.
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* Dedicado a todos os blogueiros que já foram invadidos, surrupiados, apagados, incomodados, ofendidos e/ou plagiados. E ao povo da sopa-de-letrinhas, sem vocês nada disso seria possível!